Segunda-feira, 29 de Março de 2010

ALJUBARROTA OUTRORA AGORA

Subitamente, estremece

A extensa chã estremenha,

Ao som terríbil da trombeta estranha

Que eleva no espaço a espada e a prece.

 

Logo o quadrado se faz raiz

(Em cada cova os pés da peonagem).

Que cálice sustém aquele pajem,

Onde o espírito luz na pureza do lis?

 

Que sangue encerra? Numa aleluia,

Comunga-o de joelhos um donzel

E enfloram-lhe o verde do loudel

As rosas do Encoberto e de Santa Maria.

 

(E é já Santa Maria da Vitória

O campo onde cavalga a coragem do Rei,

Na memória da grei

O da Boa Memória.)

 

- Jovens, além! - E a Ala enamorada,

Por entre gonfalões heráldicos de cores,

Luta por seus amores:

A dama virginal e a terra violada.

 

Bradam: - São Jorge e Portugal!,

Os da arraia-miúda,

Para que o soldado Santo lhes acuda

E lhes dê livre o chão, na vide e no trigal.

 

São Jorge, frente ao dragão

Que arremete a troar línguas de fogo,

Escuta-lhes o rogo:

Faz-lhes célere a lança e certo o virotão.

 

E ei-lo o outro Santo combatente,

Entronizado em seu cavalo,

A mão da Mãe divina a abençoá-lo

Na bandeira que segue, à frente, à frente!

 

Em Deus e Pátria e Rei transfigurado,

Desfere a fúria do montante

E coroa a cada instante

Todo o futuro Desejado.

 

(Que o novo Portugal aprenda a lição dada

Plo velho Portugal de Aljubarrota:

Acha sempre a derrota

Quem quer vencer a alma com a espada.)

 

ANTÓNIO COUTO VIANA

 

publicado por Eu às 21:13
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Sexta-feira, 26 de Março de 2010

CANÇÃO ÀS GRADES

Porque é que o dia demora?

Prenderam a madrugada:

A noite ficou cá fora,

Parada.

 

Porque é que tarda em florir?

Prenderam a Primavera:

O Inverno não quis partir,

À espera.

 

Porque é que a pátria envelhece?

Prenderam a mocidade:

Seiva, sol, que fortalece

A idade.

 

Porque choras, Portugal?

- Prenderam o meu futuro:

Jamais terei ideal

Mais puro.

 

ANTÓNIO COUTO VIANA

publicado por Eu às 22:19
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Segunda-feira, 22 de Março de 2010

OCIDENTE

Com duas mãos - o Acto e o Destino -

Desvendámos. No mesmo gesto, ao céu

Uma ergue o facho trémulo e divino

E a outra afasta o véu.

 

Fosse a hora que haver ou a que havia

A mão que ao Ocidente o véu rasgou,

Foi a alma a Ciência e o corpo a Ousadia

Da mão que desvendou.

 

Fosse Acaso, ou Vontade, ou Temporal

A mão que ergueu o facho que luziu,

Foi Deus a alma e o corpo Portugal

Da mão que o conduziu.

 

FERNANDO PESSOA

publicado por Eu às 23:15
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Sexta-feira, 19 de Março de 2010

A ÚLTIMA NAU

Levando a bordo El-Rei D. Sebastião,

E erguendo, como um nome, alto o pendão

Do Império,

Foi-se a última nau, ao sol aziago

Erma, e entre choros de ânsia e presago

Mistério.

 

Não voltou mais. A que ilha indescoberta

Aportou? Voltará da sorte incerta

Que teve?

Deus guarda o corpo e a forma do futuro,

Mas Sua luz projecta-o, sonho escuro

E breve.

 

Ah, quanto mais ao povo a alma falta,

Mais a minha alma atlântica se exalta

E entorna,

E em mim, num mar que não tem tempo ou espaço,

Vejo entre a cerração teu vulto baço

Que torna.

 

Não sei a hora, mas sei que há a hora,

Demore-a Deus, chame-lhe a alma embora

Mistério.

Surges ao sol em mim, e a névoa finda:

A mesma, e trazes o pendão ainda

Do Imperio.

 

FERNANDO PESSOA

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publicado por Eu às 21:46
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Terça-feira, 16 de Março de 2010

PRECE

Senhor, a noite veio e a alma é vil.

Tanta foi a tormenta e a vontade!

Restam-nos hoje, no silêncio hostil,

O mar universal e a saudade.

 

Mas a chama, que a vida em nós criou,

Se ainda há vida ainda não é finda.

O frio morto em cinzas a ocultou:

A mão do vento pode erguê-la ainda.

 

Dá o sopro, a aragem - ou desgraça ou ânsia -,

Com que a chama do esforço se remoça,

E outra vez conquistaremos a Distância -

Do mar ou outra, mas que seja nossa!

 

FERNANDO PESSOA

publicado por Eu às 22:01
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Domingo, 14 de Março de 2010

TOQUE A SILÊNCIO PELOS DIAS IDOS

Dias de Portugal, onde estão vossos sóis

Que doiravam bandeiras e medalhas,

As faces firmes dos heróis

E a férvida memória das batalhas?

 

Onde estão vossos sóis? Lá no alto, aqueciam

Os corações ao ritmo dos passos

Que o tambor ritmava e em flor abriam

"Rasgões, clareiras", nos espaços.

 

Onde estão? Onde estão? Sombras hiantes

Devoraram nos céus toda a luz do futuro!

E os passos se fizeram vacilantes,

E a marcha estacou de encontro ao escuro.

 

As noites que desceram confundiram a cor

Das bandeiras, das faces fugidias de medo!

E as medalhas perderam o fulgor

No peito da desgraça e do degredo.

 

O hinos triunfais, o rumor de ovações,

Um vento os apagou com um sopro mortal:

E fomos condenados às comemorações

Destas noites sem fim de Portugal!

 

ANTÓNIO COUTO VIANA 

publicado por Eu às 15:44
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Domingo, 7 de Março de 2010

ESCRITO NO SANGUE

Foste, às praias d'outrora, ver partir uma nave?

Vai vê-la regressar, fremente, aos aeroportos.

Tem, agora, o perfil triunfal de uma ave,

Mas nas entranhas traz cinco séculos mortos!

 

Deixou, no além-mar, um farrapo de pragas,

A memória do ódio, o turbilhão das fugas.

Traz, oculto, a sangrar por vinte e cinco chagas,

Um pavilhão de medo e envergonhadas rugas.

 

Esperava-a o pó, os fétidos detritos,

O crime da indiferença e a fome das crianças.

Antes tudo acabar numa explosão de gritos

Do que este tropeçar no gume das vinganças!

 

Foste, às praias d'outrora, ver partir um navio?

Vai vê-lo regressar, sem glória, aos aeroportos.

Antes fosse vazio e viesse vazio.

Mas nas entranhas traz cinco séculos mortos!

 

ANTÓNIO COUTO VIANA

publicado por Eu às 15:28
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