Domingo, 25 de Abril de 2010

FALSO RETRATO DE CAMÕES

Era Camões? Faltava-lhe um dos olhos,

Tinha a barba completa,

O laurel do poeta,

A gola aos folhos.

 

As mãos, não nas mostrava:

Trazia numa a espada? Noutra a pena?

(E a tuba? E a avena?

E o rolo de papéis salvo da onda brava?)

 

Era um busto, uma efígie, um cartaz de parede.

Era um livro fechado,

Escrito na poeira do passado,

Fonte interdita de nenhuma sede.

 

Era isto, era aquilo, era o que quis

Quem no quis inventar,

Expulso de si próprio, a desprezar,

Pela flor, a semente e a raiz.

 

Estava ali para servir de escudo

(E ele, a espada!),

Para dizer cultura celebrada

(E ele, mudo!).

 

Estava ali para servir de réu.

(Não, não estava ali:

Estava em quem, por amor, o chamou a si

E o leu.).

 

ANTÓNIO COUTO VIANA

 

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publicado por Eu às 18:24
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Sábado, 10 de Abril de 2010

VITORIAL

Marcham todos juntos

(Que amor os irmana?)

Destruindo muros,

Libertando espaços.

 

Vão para o futuro

Que os seus passos traçam

Ágeis e seguros

De alcançar os altos.

 

Cantam porque sonham,

Contra a fome e a náusea,

Uma pátria heróica

De espigas e de espadas.

 

E a rapariga

Que lhes ouve o canto

Atira-lhes risos

De açucena branca.

 

E a mulher que aperta

O filho nos braços

Atira-lhes beijos

Da rosa dos lábios.

 

E a velha que reza

Rosários de esperança

Atira-lhes pétalas

Molhadas de lágrimas.

 

E o velho que fica?

E aquela criança?

Ele olha mais firme

E ela mais claro.

 

Que anda um Sol fecundo

Reflorindo os campos,

Nascido na luta

Dos homens que marcham.

 

ANTÓNIO COUTO VIANA

 

 

 

publicado por Eu às 18:59
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Sexta-feira, 2 de Abril de 2010

UM CÂNTICO DE DOR E EXALTAÇÃO

- Tivemos uma pátria? Como era?

Conta-me a história. Não conheço a História.

- Era a primeira nave a desenhar a esfera.

Era uma fé, uma aventura, a glória!

 

- E perdemo-la, quando?

- Quando as plagas

Da África venceram uma esperança imperial.

E a grande perdição trouxe, nas vagas,

Destroços, ossos, sangue e lágrimas de sal.

 

- E não mais fomos nós?

- Não mais, não mais...

Romperam com espadas a fronteira,

Negaram-nos o nome e os ideais,

Esvaziaram os cais,

Arriaram, das torres, a bandeira.

 

- E agora?

- Agora, resta esta saudade, esta agonia.

Quem tem alma ainda chora...

- Até um dia. Vai haver um dia!

 

(Foram sessenta anos de demora!)

 

Mas veio o dia. Que uma pátria assim

Não morre de silêncio e escravidão.

O vigor do heróismo lhe tocou um clarim

E a ergueu, em sentido, do seu chão.

 

Reconquistou o nome e o direito

De ter voz entre as vozes que calavam de medo;

E, ao estreitar um filho ao peito,

Poder mostrar-lhe livre a terra do degredo.

 

E livre, ao fim do tempo, há-de permanecer

Em cada nova esperança no antigo ideal.

Ainda que seja um palmo, onde couber

O orgulho de ser-se Portugal.

 

ANTÓNIO COUTO VIANA

 

publicado por Eu às 22:53
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