Terça-feira, 16 de Fevereiro de 2010

AFONSO DE ALBUQUERQUE

Quando esta escrevo a Vossa Alteza,

Estou com um soluço que é sinal de morte.

Morro à vista de Goa, a fortaleza

Que deixo à Índia a defender-lhe a sorte.

 

Morro de mal com todos que servi,

Porque eu servi o rei e o povo todo.

Morro quase sem mancha, que não vi

Alma sem mancha à tona deste lodo.

 

De Oeste a Leste a Índia fica vossa;

De Oeste a Leste o vento da traição

Sopra com força para que não possa

O rei de Portugal tê-la na mão.

 

Em Deus e em mim o império tem raízes

Que nem um furacão pode arrancar...

Em Deus e em mim, que temos cicatrizes

Da mesma lança que nos fez lutar.

 

Em mais ninguém, Senhor, em mais ninguém

O meu sonho cresceu e avassalou

A semente daninha que de além

A tua mão, Senhor, lhe semeou.

 

Por isso a Índia há-de acabar em fumo

Nesses doirados paços de Lisboa;

Por isso a pátria há-de perder o rumo

Das muralhas de Goa.

 

Por isso o Nilo há-de correr no Egipto

E Meca há-de guardar o muçulmano

Corpo dum moiro que gerou meu grito

De cristão lusitano.

 

Por isso melhor é que chegue a hora

E outra vida comece neste fim...

Do que fiz e não fiz não cuido agora:

A Índia inteira falará por mim.

 

MIGUEL TORGA 

publicado por Eu às 15:49
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